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quinta-feira, 29 de abril de 2010



Curiosidades
Respondo à pergunta "O que é bruxaria" em forma de carta. E começarei com as coisas mais surpreendentes que eu possa imaginar. A maior surpresa sobre a bruxaria, para a maioria das pessoas, uma vez entendido que não somos "adoradores do diabo" nem "instrumentos do poder do mal" (no verdadeiro estilo dos filmes de horror), é que veneramos uma entidade feminina, uma Deusa. Também veneramos um Deus. Isso não surpreende ninguém. Mas reverenciar a Mãe de Toda a Vida, nesta cultura, é inesperado. Tem implicações espirituais, emocionais e sociais. Historicamente, as bruxas foram perseguidas por sua crença em uma Deusa. Isso era politicamente inaceitável num regime patriarcal. A veneração à Deusa teria que significar, por exemplo, que a terra, a Mãe Terra, seria de novo sagrada. Ela não deveria mais ser poluída ou explorada por qualquer razão, e se perderia uma enorme quantidade de poder e lucro obtido por homens inescrupulosos. Melhor, do ponto de vista deles, venerar um deus que é todo mente e espírito e vive lá no alto, longe da horrível e "pecaminosa" Terra. Na visão espiritual de nosso mundo moderno, a feminilidade há muito tempo não é considerada tão sacra quanto a masculinidade. A mulher, em todas as religiões patriarcais - o cristianismo e o islamismo em particular - é vista como aquela que traz o pecado, a traição, a armadilha ao sexo "santo". Mais próxima da animalidade, pela menstruação e parto, e da terra. Como pode haver um deus feminino?, as pessoas indagam. As bruxas dizem que o parto É o ato criativo original, e que os seres pré-históricos adoravam tanto os Deuses quanto as Deusas (principalmente as Deusas) desde tempos imemoriais. Isso está descrito nas mitologias mais antigas, e identificado por inúmeras figuras e esculturas de Deusas, descobertas em sítios arqueológicos, no mundo inteiro. Hoje em dia, algumas bruxas, rebelando-se contra a cruel supressão da Deusa, chegam a dizer que somente Ela deve ser venerada. Uma compreensível, mas triste reação. Entretanto, o Pai de toda a Vida, o Deus, precisa também de reconhecimento. Ele existe, e Sua omissão seria tão errada quanto a destruição da Crença na Deusa Mãe. A verdadeira meta é a reconciliação dos opostos. A amargura, o ódio e o ressentimento entre os sexos são antigos como a própria história, mas a bruxaria é a única religião que possui como alvo a cura destas feridas. Lamentavelmente, existem no mundo pessoas, de ambos os sexos que não desejam a reconciliação ou não crêem nessa rossibilidade. Afirmo que bruxaria, pelo menos potencialmente, é uma religião purificadora. De onde ela recebe suas credenciais? Qual é a sua história? A feitiçaria provém do paganismo. Mais especificamente, é um ramo do paganismo com raízes no passado neolítico. Evoluiu e se manteve durante milhares de anos de perseguição. No tempo presente, é um sistema de crenças e práticas encantatórias, dedicado à restauração da harmonia perdida entre a humanidade, e aos aspectos sutis, transracionais da vida e seus mistérios. Acreditamos que será também a restauração da harmonia perdida entre o ser e a Mãe Terra. Sabemos hoje porque foi classificada como má. Pois tal calúnia é pratica comum, sempre que uma nova religião substitui a antiga. As feiticeiras não são necessariamente más. Elas são simplesmente seguidoras de uma religião anterior ao cristianismo. O segundo fato surpreendente: nem sempre as bruxas são velhas, embora algumas sejam. Nenhuma delas é mais propensa às verrugas do que algum outro membro da população (embora tenham maior facilidade em afastá-las por meio de feitiços), nem são reconhecíveis. Não usam altos chapeis negros, e podem ser de qualquer idade ou sexo. Os homens também se chamam de feiticeiros ou bruxos. Alguns trabalham em conjunto, ou sozinhos, e outros, junto a um parceiro mágico. Mas não se adivinha quem, dentre seus vizinhos, poderia ser um bruxo. Sim, praticam magia. Não para rogar pragas ou prejudicar, mas para ajudar e curar. Se funciona? A magia alcança algum propósito? Terceiro fato surpreendente: sim. Mas precisa de um aprendizado, como qualquer outro estudo. É verdade, sim, que alguns feiticeiros cumprem seus ritos nus. Mas as bruxas solitárias praticam sua magia desta maneira, por acreditarem que seus corpos são sagrados e sentirem prazer na liberdade e na beleza da nudez. Além disso, a tradição diz que a magia funciona melhor assim, pois roupas impedem o fluir da energia etérica da feitiçaria. No verão, claro, ou diante de uma lareira acesa. Os arrepios não nos levariam a efeitos mágicos. Bem, vocês perguntam, após a questão da nudez, e o deus de chifres e cauda bipartida? Que tal o Velho Cornífero? Você realmente adora o diabo? Não há fogo sem fumaça. O velho Cornífero? Sim. O diabo, princípio do mal? Não! O Deus de Chifres, para as bruxas, é o companheiro masculino da Deusa Tripla. Ele é dinâmico, a força vital, aspecto masculino de toda a natureza. Nós o veneramos porque veneramos a vida. Ele possui chifres e cauda, que denotam seu conhecimento instintivo e animal, sua sapiência natural. Este Deus é parte bicho e parte homem, mescla da força vital e da perícia xamânica. O Deus Cornífero, como a Deusa, é sexual, terreno, apaixonado e sábio. Cruel e mau ele não é. Entre os dois, a Mãe Deusa e seu companheiro, se constrói o mundo. Eles o construíram de amor e desejo. Portanto, a sua sexualidade é uma força vital sagrada, verdadeira experiência espiritual. Potencialmente, a mais espiritual das experiências. Talvez este seja o fato mais surpreendente de todos a respeito da feitiçaria. Não deveria ser. Mas preciso admitir que neste mundo, como ele é atualmente, a maioria das pessoas encontra dificuldade em relacionar sexo com espiritualidade. É contra tudo o que as religiões patriarcais ensinaram sobre sexo, como vergonhoso e sujo (no máximo necessário para a continuidade da espécie). Vocês ainda estão comigo, ainda interessados? Se estiverem, perguntem mais. Farei o possível para responder a tudo, porque desejo colocar as coisas em ordem. Eu e minhas companheiras bruxas cansamos da falsa imagem de que usamos altos chapéus negros, de que cozinhamos na voltantes sopas com asas de morcegos, que rondam os pátios das igrejas na calada da noite, colecionando unhas de defuntos. Não faço isso. Não fazemos. Portanto, se a menção do Deus Cornífero (sexo) não os espantou, escrevam-me ou apareçam. Perguntem mais. Continuarei respondendo em forma de cartas, porque assim posso pensar sobre o que preciso dizer e me expressar com maior clareza. Escreverei a mesma carta para cada um de vocês, mandando cópia aos endereços separadamente, e guardarei a original como referência particular. É bom dizer a verdade e ser ouvida com simpatia. Minhas bênçãos para todos.
Louvados sejam vocês. Rae
* texto retirado do livro: "A bruxa solitária", de Rae Beth


Tenham um dia cheio de espiritualidade!!!


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